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Um dia talvez tenhamos as explicações para todas as coincidências que nos levam a tomar determinadas decisões. Às vezes, sinto como se estivesse sendo empurrada para algum ponto ainda não esclarecido, mas que, ao seu devido tempo, fará todo o sentido.

Aconteceu mais uma vez com uma viagem. Curto uma página do Facebook que mostra assuntos de interesse da mulher madura. O Projeto 60 anos, da Cláudia Grande, um determinado dia, mostrou como uma médica passava creme no rosto. Depois de assistir o vídeo, dei mais uma passadinha pelos posts recentes. E foi então que o convite para integrar um grupo de mulheres em viagem para o Peru me atraiu. Enviei mensagem para obter mais informações, fiz cálculos, convidei minha irmã Lucilene e de repente me vi voando para a costa do Pacífico.


Foi uma inspiração convidar a Lu para me acompanhar. Ainda me sinto frágil, adaptando-me à recente viuvez. Já minha irmã mais moça, longe dos 60 anos, merecia umas férias diferentes depois de cuidar dos pais até à morte deles. A alegria dela era contagiante. E para mim foi muito gratificante ter proporcionado estes momentos a ela, e, em consequência, aproveitei muito mais cada momento.


O Projeto 60 anos, em parceria com a Integral Woman comandada por Tânia Trevisan, reuniu 15 mulheres, um casal e mais uma representante de cada entidade. Ao todo, o grupo fechou em 19 pessoas. O ponto de encontro ficou combinado para a frente do check-in da Avianca, no aeroporto de Guarulhos, às três horas da madrugada do dia 1º de março de 2017. Aos pouquinhos a turma foi chegando. Algumas estavam repousando num hotel no próprio aeroporto. Outras chegaram cedo e ficaram por ali, esperando. Veio gente de todo canto do país. Uma delícia a mistura de sotaques.

Além de nós duas gaúchas, havia a Ângela, de Recife, que também passou a noite em viagem até São Paulo. Mais tarde chegaram a Tânia, a Ione, a Roliana, a Maria das Graças, a Maria Vales, a Raquel, o casal José Rubens e Eunice, a Teresinha, a Cibele, a Nádia, a Regina, a Ana Maria, a Cidália e a caçulinha Marielle, além da Cláudia. Vieram de Minas Gerais, interior de São Paulo e até do exterior, como José e Eunice, que têm residência nos EUA.

Na véspera da viagem houve um susto. Havia a informação de que o Peru estava exigindo carteira internacional de vacinação com registro para a febre amarela. Depois de acessar as fontes competentes, ficou acertado que a vacina é necessária por enquanto para quem vai às regiões próximas ao rio Amazonas, o que não era o nosso caso. Nosso roteiro começava em Lima e seguia até Cusco/Machu Picchu.

E Começa a Viagem

Decolamos às seis horas, horário do Brasil. Foram cinco horas de voo, que, descontadas duas horas de diferença de fuso horário, nos fez chegar a Lima às nove da manhã. Duas malas estavam com pequenos danos, que a companhia não cobria, e uma perdera uma roda. A proprietária recebeu um voucher de 30 dólares para cobrir o prejuízo.

O pessoal da agência peruana Viajes Pacífico nos levou ao hotel. Como o aeroporto fica afastado, em Callao, o guia Eduardo aproveitou o trajeto para explicar alguns detalhes sobre a cidade. Curiosos, olhávamos o tráfego enlouquecedor de veículos. E soubemos que Lima, ao nível do oceano, é conhecida como a Cidade Cinza. Apesar do calor, o tempo estava nublado, como é frequente por lá. Outras dicas foram sobre a pureza da prata vendida por lá – 950 – e para não confundir as lãs: vicunha, baby alpaca, alpaca e ovelha, nesta ordem de preço e qualidade.

Fomos levados para o hotel Sonesta Olivar, em frente ao parque das oliveiras centenárias, onde fomos recepcionados com um delicioso suco de papaia, abacaxi, melão e outra fruta, talvez laranja. Após largarmos as bagagens nos quartos, trocamos de roupa para começar as atividades com o corpo e o espírito preparados por uma professora de yoga. Nosso amigo José Rubens entrou na sala para fotografar e depois sumiu! O relaxamento foi tão eficiente que até se ouviram alguns sinais sonoros de sono profundo.

O almoço foi servido no restaurante El Señorio del Sulco, à beira-mar, onde fomos apresentados ao milho roxo escuro, ingrediente fundamental para a produção do refresco servido, a chicha morada. Como aperitivo comum em praticamente todos os locais de refeições, recebemos um copo com pisco sour, a caipirinha típica. A entrada constou de ceviche com batata doce na laranja e milho. O prato principal estava bem temperado e, assim como nas demais ocasiões, nos mostrou que a batata é item constante nos cardápios. “São três mil tipos”, garantiu o guia. Peruano aprecia muito o número três, como vimos depois. A proprietária do restaurante veio nos agradecer, após a refeição. Representantes do turismo peruano fizeram distribuição de brindes.

À tarde, fomos ao Museu Arqueológico Rafael Larco Herrera, no distrito de Pueblo Libre (Povo Livre). Como o guia acentuou, o Peru foi habitado por muitos povos que ocuparam as terras e desapareceram. Os incas, na verdade, foram os chefes do povo andino. As línguas aimará e quíchua são faladas atualmente, assim como o espanhol.

O museu em seu exterior é de um bom-gosto inquestionável. Os jardins, aparentemente despojados, produzem uma atmosfera de encanto e tranquilidade que era tudo o que precisávamos, após a noite não dormida. O cenário de buganvílias e cactos ultrapassava a barreira dos muros. Dentro da casa de hacienda branca, um dos maiores acervos de arte pré-colombiana mostrou-nos quatro mil anos de arte anterior à chegada dos espanhóis. E uma das coisas mais interessantes da visita é que os depósitos do museu estão abertos à visitação também. Infelizmente, a companheira Roliana é alérgica e ficou completamente sem voz o resto da tarde.

Não apenas utilitários de cerâmica, incrivelmente preservados, ocupavam as prateleiras e mostruários. Confecções, joias, lãs, aparelhos e muito mais estão lá para provar que a tecnologia daqueles tempos era avançada e eficiente. Mas divertido mesmo foi concluir o circuito apreciando o setor de arte erótica. Às vezes chocante, em outras até romântica, a cerâmica à mostra revelou um povo muito sexual, sem muitas proibições. As imagens de guerreiros com mulheres, homens e animais estão lá para mostrar que a humanidade não mudou através dos tempos.

O jantar foi servido no restaurante anexo ao museu, regado a cerveja Cusqueña geladíssima. Depois de a barriga estar satisfeita, voltamos ao hotel para o merecido descanso.

Segundo dia, 2 de março, quinta-feira

Quem teve disposição aproveitou para conhecer o parque das oliveiras de San Izidro, el Olivar, depois do café. O bairro é ocupado por muitas embaixadas, consulados e setor financeiro da capital peruana. Ainda resistem casas em madeira, totalmente ou apenas nos balcões fechados. No centro do parque há uma fonte com um lago de peixes. Foi interessante saber que a oliveira foi introduzida em Lima em 1560, quando Antonio de Rivera trouxe mudas diretamente de Sevilha e as plantou no centro de San Isidro. Hoje, são mais de 1500 árvores.

A programação oficial começou com o passeio ao complexo arqueológico Huaca Pucllana, em Miraflores. O sítio é um deserto no coração da cidade, cercado por construções atuais. Mais de 1500 anos de história sobrevivem ali, entre pedras, cenários reconstruídos em tijolo de barro, escavações e uma pequena horta com microzoológico. As plantas estão nomeadas, bem como os animais – lhamas, porquinho-da-índia (chamado cui-cui).

Uma grande maquete ajuda a compreender como viviam os povos daquele lugar. Os guias explicam em vários idiomas sobre o complexo, enquanto prossegue o trabalho de escavar e preservar a frágil estrutura. O método de construção é apontado como eficiente para resistir a terremotos. Este conhecimento foi menosprezado pelos invasores espanhóis, que sentiram na carne o preço da ignorância no primeiro tremor do solo.

Visitamos o entorno da pirâmide e nos preparamos para subir. O dia estava quente e, excepcionalmente, o sol brilhava em pleno poder. De repente, alguém chamou a atenção para o alto. Apesar da dificuldade de fixar os olhos em tanta luz, percebemos que havia um halo colorido ao redor do sol. Foi um momento raro, garantiu o guia peruano. E foi também com muita emoção que nos abraçamos em círculo, agradecendo pela oportunidade de compartilhar o inusitado fenômeno. Bem disse a Tânia que a viagem teria estes episódios mágicos…

Do alto da pirâmide, obviamente, víamos uma cidade moderna. Bastava um pouquinho de imaginação para colocarmo-nos no lugar dos andinos de antigamente, com suas preces, sacrifícios e oferendas. Os administradores do complexo souberam colocar as informações nos locais estratégicos.

Depois da descida, o restaurante do complexo nos aguardava com chicha e pisco sour, como de praxe. A entrada chama-se causa e é um delicioso purê de batata com camarão no recheio, depois veio um saboroso prato à base de peixe – truta salmonada com batatinha coquetel. Para finalizar, suspiro limenho com chocolate branco. Provei o refrigerante que batia a Coca-Cola até ser adquirido pela poderosa multinacional: Inka-Cola. Alguns companheiros disseram que parecia sabão para lavar louça. O gosto é de infância. Como os picolés que a gente comprava em saquinhos plásticos. Para fechar, comprinhas na loja local: folhas, balas e chás de coca.

Na sequência, fomos fazer um city tour. Visitamos a igreja do convento de Santo Domingo e a catedral de Lima. As ricas decorações em madeira folheada a ouro, as diversas esculturas de santos, os objetos antigos em exposição, tudo encanta nestes lugares onde o poder da Igreja Católica se sobressai. No convento há uma capelinha dedicada a Santa Rosa de Lima. Aliás, seus restos mortais estão guardados no subsolo. O local tem belíssimos trabalhos em entalhe na madeira.

Na catedral, logo à entrada, há um registro da conquista pelo espanhol Francisco Pizarro, com direito a árvore genealógica e tumba onde está o que restou dele. Um quadro domina a parede e mostra Pizarro expulsando soldados nus. Provavelmente, aqueles que não concordavam com os métodos do invasor.

 

A pé pudemos apreciar a limpeza da cidade, o cuidado com os jardins e passeios e a beleza dos prédios históricos ou não. Andamos pelo parque do Amor, no bairro Miraflores. Não é bem um parque, talvez uma praça, mas é muito linda, no alto da falésia que protege a cidade das investidas do oceano. O que torna o parque mais interessante é a amurada em mosaicos coloridos, como se vê nas obras de Gaudí, na Espanha. Frases de amor de poetas peruanos podem ser lidas em meio às imagens. No ar, paragliders ajudam a dar mais vida à costa. No centro do parque há uma escultura do artista local Victor Delfin, chamada El Beso (O Beijo), inaugurada no Dia dos Namorados de lá e de muitos outros países, 14 de fevereiro de 1993.

Por falta de tempo, não foi possível visitar o Mercado Inka. Ficou para a próxima. Tínhamos horário para chegar: 19h15, em que veríamos o show das fontes. Antes, teríamos que enfrentar o caótico trânsito de fim de expediente. Chegamos exatamente no horário marcado. O Circuito Mágico das Águas é um imenso parque urbano onde estão 13 fontes que combinam água, luz, música e efeitos de laser. É considerado pelo Guinness World Records o maior complexo de fonte em um parque público no mundo. O ingresso é bem baratinho, e o povo vai mesmo, principalmente para ver a criançada – e grandinhos também – se esbaldarem nos túneis molhados.

O circuito fica no Parque da Reserva, bem próximo ao centro de Lima. Este parque foi criado em 1929 para homenagear os civis que lutaram para defender Lima durante a Guerra do Pacífico. Entre os anos 1960 e até o início da década de 2000, esteve abandonado até que, em 2007, foi inaugurado o circuito em um parque todo restaurado.

A atração principal é a Fonte da Fantasia, com seus 120 metros de comprimento por 20 metros de altura. O show mostrou atrações turísticas do Peru, suas músicas tradicionais, aspectos da cultura local e várias formações surpreendentes, feitas com água e luz. Imperdível.

Depois do parque, o grupo foi jantar no La Dama Juana, com música e dança peruanas. A comida não agradou muito, mas o espetáculo foi interessante. Volta ao hotel para preparar a mala rumo a Cusco.

Terceiro dia – 3 de março, sexta-feira

Saímos relativamente cedo do hotel, com o guia Eduardo Aguillar, rumo ao aeroporto. Como sempre, o trânsito complicado exige antecedência mínima de três horas. De Lima a Cusco é apenas uma hora de voo. Aí o bicho pegou. Subimos quase três mil e quinhentos metros de altitude. Algumas pessoas enjoam, outras sangram pelo nariz. Há quem tenha taquicardia e pressão alta. Gripe, sinusite, mal-estar geral. Poucas são poupadas do mal de altitude.

Chegamos ao hotel Ramada Cusco quase na hora do almoço. Como a refeição não estava incluída na programação, cada um saiu à procura do que comer. Opções não faltam no entorno do hotel. Nem oferta de produtos nativos em lã. No próprio hotel, a senhora Tomaza acompanhada por um menino e uma cabritinha abrigava-se sob os arcos da antiga casa para vender luvas, gorros, mantas e casacos aos hóspedes.

À tarde, o grupo foi dividido em dois para cabermos em vans. Não é permitida a circulação de ônibus grandes no centro histórico. Uma parte seguia Hector e a outra foi com Lúcio. Eles nos levaram para conhecer um sítio arqueológico chamado Templo Coricancha, que em quíchua significa Recinto de Ouro. Apesar de ver-se apenas pedra sobre pedra, ainda assim é impressionante. Conta a história que no tempo dos incas as paredes eram recobertas de ouro. Os padres dominicanos ergueram uma igreja sobre o templo, mas o terremoto de 1950 derrubou a construção católica e revelou a solidez da técnica inca de construção.

É nesta igreja de Santo Domingo que está exposto um quadro especial, colorido e cheio de significados. Disse o guia que representa Cusco ou Qosco, como vemos diversas vezes, o umbigo do mundo, com linhas que representam as trilhas por toda a América do Sul. Já a Catedral de Cusco é considerada uma das mais lindas do mundo. Seu altar principal é todo revestido em prata, em homenagem à Virgem de la Asunción. Uma imagem que mais chamou a atenção foi a do Senhor de los Temblores (terremotos), o Cristo em cor negra. Disse o guia, com um entusiasmo contagiante por tudo o que se refere ao seu país, que a cor é assim pelo contato próximo à fumaça das velas. Será?

Houve tempo para uma voltinha pelo centro. Fazia um pouco de frio por causa da chuva. Na frente de uma das tantas igrejas e também na praça das Armas jovens ensaiavam uma dança que para eles é Carnaval. Tivemos sorte. A festa deles vai até domingo, diferente da nossa que termina na terça-feira.

Por conta do estado geral de debilidade do grupo, não houve muito agito à noite. Alguns, mais corajosos, saíram para curtir as atrações da cidade. Outros caíram na cama de roupa e tudo.

Quarto dia, 4 de março, sábado

De novo divididos em dois grupos, seguimos rumo a Sacsayhuaman. A antiga fortaleza inca, de mais de 500 anos, impressiona pela técnica de construção primorosa e sólida. As pedras são tão perfeitamente encaixadas que dispensam qualquer tipo de cimento. Pelos campos ao redor as lhamas pastam sob o olhar vigilante dos pastores. Ou serão fiscais para evitar a depredação do local?

Não há como observar todo o conjunto arquitetônico e não imaginar como era a vida dos habitantes daquele lugar. Quantos foram necessários para transportar as pedras? Para lapidá-las e encaixá-las? Quem idealizou cada recinto e para o que serviam? Fica uma lição de humildade a nós, tão modernos e civilizados, mas incapazes de repetir esses feitos sem nossas preciosas ferramentas elétricas.

O guia relembrou os três animais representativos da tradição andina: o condor (mundo superior ou dos espíritos), o puma (mundo do meio ou dos homens) e a serpente (mundo inferior ou dos mortos).

Seguimos até o santuário Qenqo, antigo templo de Puma. No interior de uma rocha vimos o que deve ter sido um altar para sacrifícios ou oferendas. Depois, seguimos para Puka-Pukara, uma espécie de aduana para controle de passagem. Muita energia boa fluía no ar. O silêncio convidava a refletir sobre a própria vida e a agradecer pela oportunidade de estar lá.

O interessante é que Cusco está a poucos quilômetros de distância, alguns metros menos de altitude.

Após o cansaço provocado pela altitude e pelas andanças no comércio de Cusco, o grupo dispersou-se depois de brindar no hotel com prisco sour, é claro.

Quinto dia, domingo, 5 de março

Deixando o hotel em Cusco, também deixamos as malas para serem guardadas em outro local. Seguimos em direção ao Vale Sagrado levando a mochila com o mínimo necessário. O primeiro ponto de visitação teve vários momentos incríveis. O primeiro deles foi uma aula em Chinchero. No interior do ateliê, uma senhora muito simpática nos explicou como se dá o processo de tratamento da lã desde a tosquia do animal até os métodos de tecelagem. A partir de um pequeno punhado de lã ainda suja, que ela lavou com água de yuca (mandioca), vimos aparecer uma bola branquíssima. Aliás, ela aproveitou este momento para dizer que usa o melhor sabão que a natureza dá. Inclusive, o povo andino usa para lavar o cabelo e por esta razão não ficam grisalhos.

Percebemos, então, que ela tinha razão. Em nenhum momento vimos nativos com cabelo branco, muito menos grisalho. E outra coisa: os dentes são saudáveis, na maioria dos sorrisos que nos recepcionaram. Foi um choque.

A aula prosseguiu, insistindo na diferença entre os diversos tipos de lã. Sempre com a vicunha em primeiro lugar, depois a baby alpaca, a alpaca e por fim a ovelha. Mostrou-nos como tinge em diversas cores utilizando vegetais e até animais como corantes. A cochonilha, por exemplo, ela esmagou na própria mão para vermos a intensidade da cor roxa. Por fim, mostrou como se transforma a massa lanosa em fios prontos para tecer nos teares milenares.

Ao sairmos à rua fomos surpreendidos por um movimento intenso e colorido. Sorte nossa, porque as comunidades enfeitadas para o Carnaval estavam desfilando bem a nossa frente, ao som de tambores e outros instrumentos. Na cabeça, os chapéus distinguiam os grupos. As mulheres costumam usar várias saias. Ambos os sexos calçavam sandálias simples ou sapatos bem gastos. As crianças acompanhavam o cortejo e as mamães carregavam o “pacotinho de bebê” às costas, sem perder a alegria.

Fomos privilegiados com o desfile. A custo deixamos Chinchero para trás, em direção a Moray, com seus terraços circulares gigantescos, em vários níveis, como um teatro ao ar livre. Cada série de plataformas teria uma função experimental, explicou-nos Hector, um dos guias. Pesquisas agrícolas levariam em conta a diferença de temperatura entre um nível e outro. Aí o queixo cai. Como gente tão pouco abastecida de ferramentas pôde construir algo tão perfeito, matematicamente falando? Nessas horas é impossível não pensar em ajuda extraterrestre.

O restaurante El Tunupa Vale nos aguardava para repor a energia. Bufê livre, à vontade. Lá fora, um grupo de senhoras peruanas vendiam seus produtos no pomar onde vimos um tomateiro bem diferente. No fim do terreno, um rio corria em velocidade inacreditável. Quem aprecia canoagem ou rafting deve ficar babando. Aliás, todos os rios que vimos são de correnteza assustadora. Deve haver muita erosão por lá.

Dali fomos para as salinas de Maras. Sal várias vezes mais rico em minerais do que o do Himalaia, garantiu o guia. E havia sal de todo o jeito: para a mesa, cozinha, temperado, diversas moagens… Tudo dali, a quase mil metros de altitude, entre montanhas, de um tempo em que o mar cobria tudo.

Isto é viajar. É transportar-se no tempo para conhecer como pode ter sido, outrora. Mesmo que jamais tenhamos como saber exatamente, o que vimos em Maras foram salinas, sim. E o mar está bem longe. Surpreendente mesmo. Como havia chovido, os “tanques” de sal estavam cobertos pela água barrenta.

Continuamos a viagem rumo ao hotel onde passamos a noite. Antes, fomos contemplados com um ritual xamã. Hector nos explicou que eles não usam este termo, preferem paco. O hotel fica num local isolado, de muito silêncio e paz. A dificuldade foi para acessar os quartos através de escadas ou rampas. Naquela altitude, arrastando o peso do corpo e da mochila, foi bem difícil, apesar de bonito.

O sacerdote estava acompanhado da mulher e de um sobrinho. Acocorados no chão, ele foi juntando diversos elementos sobre um plástico. Tinha folhas, enfeites, sementes e um bocado mais de oferendas. Ao fim da cerimônia, tudo foi colocado no fogo que aguardava ali perto. O xamã e a família nos abraçaram e nós também nos abraçamos. No final, ele reservou um tempo para ler nas folhas de coca para quem queria e estava disposto a pagar pelo serviço.

Cansados, pedimos algo para comer no quarto. O dia voou, sem percebermos.

Sexto dia – segunda-feira, 6 de março

Para muitos de nós, o verdadeiro objetivo da viagem estava chegando. Machu Picchu, a misteriosa cidade perdida, nos esperava. Fomos de van até a estação ferroviária, onde nos instalamos em um trem Expedition da Peru Rail, muito confortável e adequado à apreciação da paisagem até Águas Calientes, em Ollantaytambo. Acompanhando o rio Urubamba, vimos descortinar-se uma sequência de solo cultivado com milho e outros produtos, tendo ao longe as montanhas que, afirmou o guia, veríamos as geleiras do cume, se não estivesse nublado. Tomamos um café incluído no valor da passagem e logo chegamos.

Bem, ainda não chegamos a Machu Picchu. No povoado de comércio movimentado, localizamos os micro-ônibus que estão autorizados a subir a montanha. Quer emoção? Suba num veículo desses e observe como fazem as curvas não em S. Eu diria em V. Mas se em sentido contrário vem outro descendo, um recua até ser possível o cruzamento na estrada onde só cabe um veículo por vez.

A chegada a Machu Picchu é em um ponto terminal com restaurante e outros pequenos comércios. Oportunidade para comprar a capa de chuva mais que necessária. Foi realmente uma pena que estivesse toda a cidade ao fundo entre nuvens. Viam-se as pedras entre a fumaça da garoa. O grupo seguiu em frente, acompanhando os guias e ajudando-se mutuamente.

O único viajante, José Rubens, dedicou-se à solidariedade amparando as companheiras com maior dificuldade. Nem sempre havia corrimão ou pedras para se segurar. De um ambiente a outro as passagens são por corredores, escadas para cima ou para baixo, em constante atenção. E de repente estávamos no espaço aberto que provavelmente teria sido um observatório astronômico. E no alto, um posto de vigia, coberto por palha.

Mesmo sem o sol, com as mãos geladas, a roupa úmida e os calçados ensopados, agradecemos pelo privilégio de termos chegado àquele ponto que até então fizera parte de nosso imaginário. Por incrível que pareça, ao erguer as palmas para o céu, um calor intenso aqueceu as mãos até dos mais céticos do grupo. Muito mágico.

Graças aos guias, observamos detalhes que teriam passado despercebidos, tais como os espelhos d’água, que, acreditam, serviria para observação dos astros. Mais uma vez, eles nos chamaram a atenção para os encaixes “desencaixados” das pedras, nunca em ângulo reto, para aguentar os abalos sísmicos.

As fotografias estavam prejudicadas. Voltamos para a entrada do complexo, onde almoçamos no restaurante Tinkuy do hotel Belmond Sanctuary Ayasqa. Para surpresa geral, o tempo melhorou. Tínhamos tempo para mais algumas fotos, e neste quesito a turma foi incansável. Quase todos subiram novamente para registrar a presença naquele local que até hoje não se tem certeza de como e por que foi construído, mas que foi tão bem feito que está lá até hoje.

Disseram para nós que talvez sejamos os últimos turistas a caminhar livremente por Machu Picchu. Infelizmente, o pessoal não se contenta em ver. Tem que tocar, gastar, sujar, mexer. Em pontos estratégicos os guardas ficam de olho e apitam forte, caso alguém ultrapasse a corda que limita os acessos. Espero que isto não aconteça tão cedo. É um lugar muito especial, de verdade. Não apenas pela importância histórica e beleza cinematográfica. É a alma humana em registro ainda não totalmente compreendido.

A volta foi de trem, também, depois de uma passadinha no centrinho comercial ao lado da estação. Sim, era trem da PeruRail, mas de outro nível. Voltamos num legítimo Orient Express, com direito a banda de música e espumante ainda na estação. Dentro do luxuoso Hiram Bingham (nome em homenagem ao descobridor de Machu Picchu, em 1911, segundo a Wikipédia), nos esperava o serviço all inclusive, isto é, comida e bebida à vontade.

Dois vagões adiante havia uma banda de três músicos que perceberam logo nossa origem e largaram “Garota de Ipanema”. Para mostrar que a turma não é fraca, todas caíram no samba. E a alegria era tão contagiante que uma família de viajantes aceitou o convite e entrou na roda. Um americano grandão, animado mas sem muito jeito, não se fez de rogado e dançou também. Quando a banda largou “Satisfaction”, até o guitarrista enlouqueceu e colocou a guitarra na cabeça, nas costas, mostrando muita habilidade e entusiasmo. A moça encarregada de nos mandar de volta às mesas teve trabalho.

Fomos servidos de entrada, prato principal e sobremesa. Se teve algo mais nem vimos, porque no vagão da música tivemos mais meia hora de show, que só terminou porque estávamos chegando a Cusco, onde nos hospedamos no Novotel.

Sétimo e último dia no Peru

Tomamos café e ainda tivemos tempo para mais umas voltinhas em Cusco, cada um por si. Deixamos as malas na portaria. Alguns foram ao Mercado São Pedro, outros andaram à caça das últimas lembrancinhas e compras. Os guias nos acompanharam até o aeroporto de Cusco, de onde partimos para conexão em Lima. Nosso voo para São Paulo saiu às 22 horas e a chegada foi na madrugada do outro dia, com acréscimo das duas horas de diferença do fuso, às cinco da manhã.

Praticamente não tivemos tempo para despedidas. Havia malas a recolher, novos voos a embarcar e, pior que tudo, a tristeza por deixar a companhia de novos amigos tão interessantes e queridos. Certo que pelo WhasApp e Facebook é possível manter contato, mas dificilmente estarão todos juntos de novo. Mesmo assim, foi muito enriquecedor ter conhecido um pouquinho que seja de cada um. Foi realmente uma viagem prazerosa e transformadora. Obrigada pela companhia.

Tania Trevisan

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